Acho que somos a quantidade de momentos marcantes que vivemos.[2]
janeiro 10, 2011
Depois de tanta coisa, em apenas um dia, eu me senti confuso. Eu ainda não sei explicar mas é algo novo, um sentimento novo. Pode ser uma mistura de idealização e admiração. Tudo que eu penso de bom em uma pessoa se encontra nela. Obviamente ela não deve ser tudo isso que eu quero que ela seja, é impossível. Mas a distância só assina embaixo das minhas impressões. É uma maduridade que pode ser confundida com a repressão dos sentimentos. O carisma não tem como negar, para os mais velhos tanto quanto para os mais novos. É aquela que chama a atenção, sem querer. Vai entender, tem gente que é assim. A racionalidade faz parte daquela cultura, é a dela é linda, uma linda racionalidade, que depois de tantos anos longe e tão pouca intimidade, parece perfeita. A reciprocidade mexe comigo, me tira do eixo. Pois não é essa reciprocidade que estou acostumado, é contida, uma reciprocidade por demais respeitosa reservada. É algo parecido com o conformismo, mas um conformismo benigno, uma aceitação da vida sem que isso soe de forma pessimista. É viver a vida que lhe ofereceram, moldando-a onde se deve. É assim desde sempre, as crianças nascem assim e são criadas assim, são todos seres humanos lindos. Eu realmente preciso saber mais, ou acho que devo pois na minha imaginação já sei de tudo. Lidar com as coisas de uma forma diferente mexe comigo, porém lidar com as coisas de uma forma até então desconhecida é extremamente desconcertante, junte a isso a saudade de muitos anos, a curiosidade de uma vida não partilhada, a felicidade do reencontro, a admiração por tudo que se é, e a admiração física. O sorisso é algo mágico. É uma expressão facial única, é como se ironia, ingenuidade, independencia e confiança se reunissem para formar um sorisso. É incrível.
No dia de sua despedida, o choro acordou comigo e rebentou à noite. Foi um crescente durante o dia. Todo ao seu lado. A tarde desprenteciosa, as fotos,as músicas, os jogos. O último (que viria a ser penúltimo) eu fumei quase todo sozinho, sentado no frio. Mas ela, com sua racionalidade exacerbada percebeu. No final das contas ela é uma baita mulher, e essas coisas não fogem à estas. Um afago no cabelo e um último trago, dela, n meu cigarro que estava já no fim. Após, cigarro no chão e a vida segue. É assim que as coisas são por lá, pra ela. Mais algum tempo junto, uma cerveja na casa dos tios. A cada gole, a despedida se aproximava, nunca foi tão angustiante uma cerveja. Saímos da casa. Ela iria para sua casa, pois viajaria pela manhã, e não importava se havíamos ficado 12 anos longe, a vida não pode se desarrumar, ela tinha que dormir para estar bem para encarar a estrada. Eu nunca faria isso, mas essa diferença é que me mata de amor. O frio nos esperava do lado de fora, mas eu não pus meu casaco para sair. Queria abraça-la sem aqueles centimetros de tecido a nos separar. E ela veio me abraçar, obviamente. Uma despedida rápida. Um beijo no rosto e a promessa de manter contato. Eu, que sei lidar bem com momentos como esse, não consegui falar muita coisa, começa a doer. Ela se foi, entrou no carro e se foi. Eu devia andar uns 50 metros até a casa do vovô, para jantar. Ali começava o que ainda não passou. Uma falta incrível e potencializada por tudo que eu vivi e por tudo que eu sou. O jantar foi insuportavelmente longo e triste. Tive que subir pro meu quarto e parir o choro que berrava. Ali entrou em cena tudo que não existe nela. A não aceitação, a briga pelo contrário, o murro em ponta de faca. Eu não podia aceitar, afinal ela ficaria mais 12 horas na cidade, eu tinha que vê-la novamente. Eu tinha que pensar em algo rapidamente, alguma desculpa para estar com ela mais uma vez. Modéstia a parte, nisso eu sou bom. Sei inventar histórias que ninguém julgaria inventadas para um outro propósito. Felizmente não precisei ir muito longe. Faria uma retribuição do presente recebido. Deveria achar algo para oferecer a ela, e a última noite na cidade era a desculpa perfeita. Perguntei a meu pai se haveria problema em ir lá, entragar algo para ela. Já era 22h30 e nesse horário ir à casa de alguém sem ser convidado é um tanto quanto desagradável. Mas tínhamos a favor a nossa presença lá depois de muito tempo, e a vontade de todos em nos ver. Meu pai não só disse que não havia problema como quis ir junto, era muito cedo para alguém que vive há muito tempo nos trópicos ficar esperando o sono naquela casa tão cheia de recordações e melancolia. Fomos, e aquela caminhada de menos de 10 minutos, na escuridão do inverno europeu foi como um dia de sol inesperado para aqueles que esperam meses de frio. Um fui feliz naquela caminhada, na certeza de ter conseguido o que eu queria, na certeza de vê-la novamente. Isso porém me assusta muito. Cheguei, entreguei, como se fosse a coisa menos premeditada do mundo, ela adorou. Mais alguns instantes juntos, e o último cigarro enfim. O cigarro era a forma de te-la só para mim por alguns instantes. Meia dúzia de frases trocadas e a certeza daquilo tudo. Eu já podia ir embora e esperar a tristeza que viria nos próximas dias, meses, anos. Mas seria uma tristeza enfraquecida por uma vitória advinda do lugar que eu menos admirava naquele momento: a covardia,que seria, para muitos, a explicação daquilo tudo. Porém depois entendi como a melhor coisa que eu poderia ter feito naquele momento. Criei uma história que nasceu do meu mais puro sentimento. Eu presenciei a minha história e a escrevi conscientemente. Eu fui corajoso.
Sobraram as fotos e o futuro. A confusão e o medo. A distância imortaliza quase tudo. Eu não quero deixar de sentir isso que me dói, eu não quero perder esse querer, voltar à normalidade tão desejada por tantos, quero manter essa chama acessa para que algo continue me impulsionando. Porém dói um tanto.
É minha idealização de família, tudo que eu sempre quis. Mas é também minha idealização de mulher. Eu acho isso lindo. Meu sono não.
O frio foi a recepção mais calorosa que eu já tive. Não sei explicar o que senti ao adrentar aquelas ruas escuras, frias e silenciosas. O casarão do vovô é lindamente assustador. A composição carro na frente do portão aparece em várias fotos da minha memória. Assim que o motor do carro foi desligado, o ranger do trinco da grande porta se abriu. O barulho da maçaneta batendo no portão da madeira envelhecida me perseguirá a vida toda. Minha tia Françoise sai de supetão, como se atenta a noite toda ao primeiro deslocamento de ar proveniente do carro de seu filho, que nos trazia. Uma senhora francesa, tão sofrida quanto generosa, uma mulher emocionante. Tem no cemitério daquela pequena cidade de menos de 700 habitantes grande parte de sua vida: filha, marido, mãe, pai e tia. Ela é incrível. A emoção nessas horas é tão grande que só nos empurra pra frente, se mascara em curiosidade. A porta que dá na cozinha era uma porta no sentido mais metafórico da palavra, ela nunca mais vai se fechar na minha vida. Eram 23h, madrugada naquele vilarejo tão regrado e imponente. Muitos estavam lá, nos esperando. Eu entrei afoito com as malas, não os vi em seus primeiros olhares em minha direção, mas senti. Senti a felicidade recíproca que subia, o calor. Foram 12 anos longe, um sentimento sufocado, que era sua única forma de mante-lo sob controle, já que imortal. É uma vida. São os laços. A gritaria e o choradeira eram internas nessas pessoas que tanto sentem e tanto ensinam com sua racionalidade aprendida desde criança. É pertubador, é incrível. As palavras vinham no lugar do choro. Nenhum dor física ali existiria, eu era todo exterior, todo olhos, boca e ouvidos, eu era sensação, assim como eles que olhavam algo como uma ressureição. Meu avô foi o último a quem eu cumprimentei. Ele estava no quarto, deitado, sorrindo. De olhos fechados.O frio era tanto que ele usava um cobertor de madeira. Vestia um terno tão bem alinhado quanto a trajetória da sua vida, seu sorisso era como o de alguém que, melhor do que ninguém, sabe que cumpriu seu dever e deixa algo que poucos conseguem. Uma família. Uma família de verdade, onde o amor pode ser experimentado na sua forma mais pura. Eu fiquei ali alguns instantes enquanto minha tia contava sobre seu derradeiro dia. Eu olhava e a implacabilidade do tempo me corroía por dentro, o arrependimento também. Minhas memórias, por mais sinceras que sejam, são poucas, isso dói como pouca coisa dói nesse mundo. O enterro foi no dia seguinte. A grandiosidade fúnebre daquele momento não cabe em nenhum filme, não cabe ser representada, apenas vivida. Um por um chegam os familiares, primos, tias e tios. Alguns eu vejo pela primeira vez ali, o choro se duplica e ganha da felicidade do reencontro. A morte é invencível. Chega o momento da despedida e a família toda cabe no quarto de seu patriarca, todos juntos pela última vez ao som dos soluços silenciosos, o último adeus. O caixão se fecha. Saímos. Quatro homens de preto e cabeças baixas entram no quarto enquanto esperamos do lado de fora. Alguns momentos depois sai meu avô. Sai para sempre da casa em que nasceu, noventa anos atrás e de onde, realmente, só sairia carregado, deitado, sorrindo e de olhos fechados. Toda a família o reverencia e agradece sem mover lábios ou membros. A cena é indiscritivelmente forte. O grande portão se abre e ela passa por ele pela última vez. Uma palavra quebra o silêncio e nos chama para seguí-los. A igreja fica há alguns metros, o suficiente para a imagem mais bonita e triste já experimentada por meus olhos. Ao sairmos da casa atrás dos quatro homens que carregavam o caixão nos ombros, uma pequena multidão se aglomerava na frente da igreja, de cabeça baixa e lágrimas nos olhos. O sino era o único som possível. Meu pai e Françoise iam na frente da comitiva e atrás todos os filhos, netos e bisnetos. Todos os 90 anos do vovô estavam ali, todos seus amigos, toda sua vida. Uma cerimônia digna de um rei….
se não fossem os táxis…
dezembro 13, 2010
Para que uma vida se eu tenho um dia?
Nem um dia. Só algumas horas, algumas palavras, está tudo ali. O resumo mais fiel está no primeiro contato, não há cortinas.
Me despeço do tédio no seu primeiro gole de cerveja. Meu sangue corre mais rápido na sua primeira palavra emitida em minha direção. O primeiro olhar que se choca prepara tudo e me apaixono no seu primeiro trago, que parece bem mais lento do que de fato é. Me caso no primeiro brinde. Nossa família começa a se construir no primeiro toque, a primeira piada instala nosso cotidiano. O amor se resume nas primeiras horas, depois é tudo repetição. O primeiro sorisso nunca será repetido por não ter como fundo a comparação consigo mesmo.
Sou deixado com um beijo precedido da palavra “prazer”.
Te conhecer já é o suficiente para termos uma história, mesmo que você não faça a menor ideia dela.
Te escutar me faz saber exatamente para onde viajaremos, para onde se encaminhará nosso amor.
O simples fato do seu corpo estar presente no mesmo ambiente que o meu já explana nossos prazeres, nossas brigas e nossas reconciliações.
Sua roupa me elucida suas opiniões sobre meus temas preferidos, nossos programas de sábado à noite, nosso restaurante preferido, nossa música.
Seu sorisso confirma minha felicidade, breve, por isso felicidade.
naquele viaduto, vi tudo .
dezembro 10, 2010
A arte é o único signo capaz de transmitir um mundo alheio. É por essa ponte que chega-se mais perto do coração de alguém, é um momento singular, um flash que alguns imprimem na memória de suas eternidades. O depois são todos as trancas desse mesmo coração se recompondo e te expulsando sem dó para o mundo de antes, te põem na beira do abismo sem antes de apontarem, sem querer, o caminho para outras pontes. Um instante avassalador, deve-se ter economizado algum ar para esse momento de asfixia. Turbilhão de luzes, sons, gostos e cheiros, tudo junto gerando memória que servirá de senha para quem sabe um dia resgatar essa
sensação tão incrível e perigosa.O trauma da repulsa causada por algo tão maravilhoso deve ser gerado pela certeza de ter perdido muita coisa no contato tão infinitamente fugaz, mas profundo, com a essência mais pura do outro. É querer ver mais do suas púpilas conseguem se abrir, ouvir mais do que dois ouvidos são capazes, abraçar o mundo sem tempo suficiente. Perder o todo dói, mas a
consciencia disso faz carregarmos um pouco do que foi perdido, em algum lugar dentro de nós. E isso, com certeza virá a tona e será redescoberto no futuro, como se achássemos peças de um quebra no bolso, sem saber que essas estavam lá, desde sempre.
Para doxo
maio 17, 2010
e se tudo for ilusão? Tudo que acreditamos sentir é, o tempo todo, sem que percebamos, ilusão. Isso me pertuba.
Se você for criado dentro de uma casa sem paredes e sem janela, você provavelmente acreditará que aquelas paredes englobam o que se entende por tudo. É natural, você viverá experiências lá, alegrias e tristezas sem que questione, em nenhum momento, que possa haver algo além daquele seu mundo. Aí, um belo dia, uma porta se abre. O choque é violento e você não sabe se fica com raiva ou com pena da sua casa que não é nada mais que uma casa. O mundo é muito maior. O mundo sempre foi muito maior, a realidade sempre foi contrária à sua realidade. Assim como as paredes da casa te limtavam, a sua ideia de realidade sempre foi limitada, ela não podia crescer porque simplesmente não tinha espaço. A sua realidade sempre foi uma ilusão, mas só se concretizou, para você em determinado momento, em que uma porta se abre, seja lá o que uma porta pode ser.
É como se vivéssemos em uma enorme casa e que dentro dela houvessem infinitas casas menores.
Depois que a primeira porta se abre, as portas nunca param de se abrir.
A realidade é uma casa sem portas, mas casas sem portas não existem.
A gente sempre vive na próxima casa tendo-0 como realidade, achando que nenhuma porta vá se abrir.
Mas se não há realidade, pode haver ilusão?
A nossa realidade é, então, viver numa ilusão de realidade.
Avatar
março 5, 2010
Taí um texto corajoso escrito por TOm Capri ( http://www.virobscurus.com.br/secao.asp?id=1&c_id=118 ). Vai contra a preguiça intelectual dos “entedidos” que insistem em classificar Avatar como um filme raso, de roteiro fraco e maniqueísta. Não concorda com tudo que está no texto. Mas ter a mente aberta para absorver novas opiniões já é um começo.
“Avatar é disparado o melhor filme do cinema. Mais: está em primeiro, segundo, terceiro, quarto e quinto lugar entre os melhores. É a tomada de consciência e a decisiva autocrítica da humanidade. É a grande virada, é finalmente o nascimento, pela arte, do homem como ele sempre deveria ter sido. É o começo da verdadeira História. Não só a arte e o cinema dividem-se agora em antes e depois de Avatar, também a história humana não é mais antes e depois de Cristo: tudo passa a ser antes (aa) e depois de Avatar (da). Deveriam baixar decreto universal tornando Avatar obrigatório, para ser visto pelo menos três vezes ao ano, com ingressos gratuitos subsidiados. Avatar já nasceu clássico, e não há exagero aqui, pelo contrário, estou sendo até comedido. Veja a seguir por que Avatar é mesmo tudo isso.
Primeiro, porque Avatar (roteiro e direção de James Cameron, o mesmo de Titanic) é a demonstração científica e a prova derradeira de que quem está pondo de fato a biodiversidade em risco e acabando com a vida na Terra é o capital. Fica bem claro que o verdadeiro algoz é o homem que aí está, regido pelo capital — o homem-capital —, daí Avatar ser o melhor e o mais completo estudo sobre a história contemporânea. Assistir apenas uma vez a Avatar vale mais do que cursar o primeiro grau, o colegial, a Faculdade e fazer doutorado. Tudo o que você mais precisa saber, para se transformar num ser humano autêntico e pleno, está no filme. O que faz de James Cameron mais um gênio do cinema, ao lado de Chaplin etc. A história do filme é simples e, em essência, a mesma da humanidade até aqui. Ano de 2154. Uma poderosa companhia terráquea quer explorar um minério precioso, o Unobtanium, na lua de Pandora, que orbita Alpha Centauri, a 4,4 anos luz da Terra. Obviamente, para extrair o minério, ela terá de invadir Pandora e fazer daquela lua mais uma de suas propriedades. E leva até ela uma equipe de soldados mercenários.
Qualquer coincidência com a sociedade de classes que temos hoje, de talhe capitalista, é mera semelhança. Acontece que Pandora é habitada por um povo muito simpático e doce, os Na’vi, que vivem não só perfeitamente integrados ao meio ambiente, como são parte orgânica e decisiva dessa harmonia. Uma vez que o capital ‘precisa’ devastar o meio ambiente de Pandora para extrair o Unobtanium, o conflito aflora e toma corpo. Nada diferente do que fez o capital na sua fase mercantil, quando invadiu e se apropriou de várias áreas do Planeta, dando ensejo à colonização extrativa de riquezas. E dizimou populações inteiras, como os índios nas Américas do Sul, Central e do Norte, no maior genocídio que a humanidade já conheceu, claramente aludido no filme.
Em Avatar, o capital precisa repetir isso, ou melhor, repetir o que fez, por exemplo, no Haiti: apropriar-se das riquezas de forma predatória e desordenada, para depois deixar as populações locais sem nada e na pobreza, residindo em habitações frágeis e incapazes de suportar tremores como o recente terremoto. O que demonstra, tenho dito à exaustão, não existirem mais tragédias provocadas por desastres naturais, e que a varinha mágica do capital há mais de 200 anos é a grande responsável pela destruição delas decorrentes. Em suma, o capital precisa repetir, em Avatar, o que fez em quase todo o terceiro mundo: após as invasões e a extração predatória, ele terá de instituir em Pandora o Estado de Direito, a tal da democracia que temos hoje, a política, as leis, a polícia e as instituições que já conhecemos, para manter em seu poder as áreas ocupadas e ter o ‘legítimo’ direito de se apropriar de todas as riquezas locais. Mas os Na’vi se revoltam e, unidos, enfrentam o homem-capital de peito aberto. Não vou contar como o conflito se resolve, vá ver o filme.
E há outras razões que fazem de Avatar o melhor filme do cinema. Ao mostrar a rebelião dos Na’vi contra o homem-capital, em revolta bastante semelhante à dos escravos negros do Haiti liderados por Toussaint L’Ouverture há quase 200 anos, o filme se coloca em defesa da luta armada. O povo de Pandora se arma como pode para enfrentar o homem-capital-invasor, comprovando ser a luta armada o instrumento mais valioso de defesa e proteção da humanidade: já salvou a espécie humana um sem-número de vezes, diga-se. Só a mente equivocada recusa-se a apoiar a luta armada, em nome do pacifismo abstrato. Sim, a luta armada é expediente para ser utilizado somente quando a causa é cientificamente justa e quando há possibilidade concreta de vitória. Exemplo: a contra a escravidão há cerca de 200 anos no Haiti. Era uma causa justa que exigiu o uso de armas. Outro exemplo: a revolta pela luta armada dos Na’vi na paradisíaca Pandora de Avatar. Nunca vi tão justa. No caso da luta armada no Brasil, nos anos 70, era justa também, mas ficou claro que se tratava de ação de altíssimo risco, com enorme possibilidade de fracasso. Logo, se mostrou inapropriada e inoportuna, um erro histórico, concorrendo apenas para sofisticar o aparato repressivo de então, além de ensejar a tortura nos porões da ditadura. Poucas ações são mais prejudiciais à humanidade do que a luta armada quando usada em hora errada.
Outra razão pela qual Avatar é o melhor filme da História está na desconstrução e na superação que ele faz da religião, tal qual preconizava John Lennon na canção Imagine. Em Pandora, não existe religião, no verdadeiro sentido da palavra. O vocábulo ‘religião’ vem do latim, religare, e significa religar o que já esteve unido. Esta é a concepção correta de religião, e não existe religião neste formato em Avatar. Os Na’vi estão unidos e em perfeita simbiose com a natureza, da qual fazem parte. Quando na sociedade primitiva ainda tribal a humanidade dividiu-se em classes (primeiro, como senhor e escravo, depois como senhor e servo ou patrão e empregado etc.), o homem desirmanou-se e se desagregou. As tribos viram-se obrigadas a ocupar territórios vizinhos, a usurpar e a apropriar-se de tudo neles, para impedir que seu próprio território não fosse igualmente invadido, ou seja, para garantir a própria sobrevivência. Por essa razão, os conquistadores tiveram de se tornar classe dominante, no território invadido, e de se manter em conflito permanente com os habitantes das terras ocupadas, oprimindo-os para conservar as apropriações e coibir as rebeliões, exatamente como tenta fazer o capital na lua de Pandora, em Avatar.
Mais: nas sociedades tribais primitivas, foi preciso manter os territórios ocupados sob dominação (é assim até hoje), explorando sempre sua força de trabalho (primeiro na forma de escravos, depois como servos e finalmente como assalariados etc., até chegar aos nossos dias). Necessário era não sucumbir, o que levou a humanidade ao acirramento da luta de classes, então recém-instituída. Para tanto, as tribos conquistadoras tiveram de lançar mão da luta armada e criar instituições como o poder, a polícia, a política, as leis, que irão dar origem ao Estado de Direito e à democracia que temos hoje. Tudo para conservar o que havia sido usurpado. Assim, o conflito de classes, quase sempre latente, acabou resultando muitas vezes em grandes tragédias como as guerras mundiais, chegando a pôr em risco a vida no Planeta nos momentos em que houve ameaça de guerra nuclear.
Em resumo, as tribos conquistadoras do passado, no afã de se proteger das invasões, ocuparam os territórios que as ameaçavam, dando origem naquele momento à propriedade privada e à sociedade de classes. Como se vê, o direito de propriedade individual e privada, bem como a divisão de classes, equivalem ao direito de invasão e de usurpação, o que nos leva a entender que trabalhar para os outros nessas condições, mesmo que em troca de um bom salário, é dominação, violência e violação. A religião surgiu nesse exato momento e contexto em que tal divisão de classes emergiu na humanidade. Ela buscava religar o que havia sido desunido, ou seja, acabar com a divisão de classes. Mas a luta pelo religare, inicialmente autêntica e espontânea, acabou em muitos conflitos, uma vez que propugnava pelo fim das classes, o que nunca interessou aos conquistadores.
A História nos mostra que a luta de classes acabou desembocando também nessa miríade de religiões e seitas que temos hoje, todas elas anestesiante eficaz que só serve para fazer com que indivíduos conformem-se com a divisão de classes. Para que aceitem o que aí está, como se a vida fosse assim mesmo, não tem mais jeito, e a luta de classes fosse algo natural e inerente ao homem. Esses dias, um amigo de infância, Rui Werneck de Capistrano, de Curitiba, mandou-me texto de Sêneca para tentar provar, como ele mesmo diz, que o ser humano já nasceu ‘torto’ (carrega não só o bem, mas também o mal dentro de si). E que isto vem desde séculos, antes de Cristo e do capitalismo. Não sabe Rui (nem Sêneca) que essa idéia — segundo a qual o homem sempre foi ‘torto’ — já caiu por terra há tempo, derrubada que foi pela ciência autêntica (e mesmo pela não-autêntica, a oficial que aí está).
De fato, é correto dizer que o ser humano é ‘torto’ desde séculos, antes de Cristo e do capitalismo, mas é equivocado dizer que o homem é naturalmente ‘torto’ ou que é ‘torto’ desde que veio ao mundo. Isto já foi amplamente comprovado pelos pesquisadores e estudiosos da época das primeiras comunidades primitivas, como os aborígenes encontrados nas Américas após o Descobrimento (nenhum conhecia as classes). Sim, o homem sempre foi, como todos os animais, instintivamente preparado para enfrentar e se defender de predadores. E sempre houve disputa pela fêmea etc., com agressões constantes. Mas o homem só se ‘entortou’, mesmo, no sentido de deixar de ser uma espécie solidária, quando se viu obrigado a dividir-se em classes e a um apropriar-se dos territórios, da força de trabalho e de tudo que era de outros, a fim de preservar seu espaço. Ou seja, o homem só se ‘entortou’ mesmo quando se tornou inimigo do próprio homem e um passou a explorar o outro, algo não-existente em nenhuma outra espécie (nem mesmo entre abelhas ou formigas, que têm suas operárias, mas isto é outra coisa).
Tão logo se formaram as classes, nos primórdios da humanidade, o homem viu-se obrigado a usar toda aquela sua agressividade instintiva e primária, de preservação, também contra os indivíduos da classe a que passou a se opor, e vice-versa. Era o homem usando seu instinto de preservação contra o próprio homem, surgindo daí o egoísmo exacerbado, e depois a exacerbação de outros traços instintivos, como o ciúme, a inveja etc. Portanto, ao contrário do que imaginava Sêneca, e muito mais como acreditava Jesus, o homem só passou “a ser torto”, no conceito de meu amigo Werneck, quando se dividiu em classes. Não foi à toa que, revoltado com a divisão de classes de sua época (em que os judeus eram escravos dos romanos), Jesus um dia gritou: “Somos todos irmãos!”
Na Pandora de Avatar, não há religião nesses termos (nos termos do religare), nem a necessidade dela, uma vez que não há o menor sinal de desunião entre os Na’vi nem de eles estarem divididos em classes. Não há classes em Pandora, pelo menos até a chegada do homem-capital, que tenta impor a divisão invadindo, ocupando, subordinando, oprimindo e apropriando-se de tudo. Na verdade, os Na’vi são ateus, embora acreditem em Deus. É que Deus, para eles, é a natureza, ou melhor, é a matéria em sintonia com tudo e da qual todos são parte. Deus, para os Na’vi, é essa energia que move os corpos e está presente na matéria. Se desrespeitada e abalada, é o todo que padece, é o equilíbrio ambiental e a vida presente em Pandora que ficam ameaçadas.
Os Na’vi até oram para esse seu deus-natureza, às vezes pedindo para que salve a vida de um irmão ferido. Mas se este acaba morrendo, ouvimos dos Na’vi algo mais ou menos assim: “Os ferimentos que sofreu foram tão graves que nosso deus, essa energia presente em todos os seres, objetos e lugares, e que nos mantém unidos e solidários, não teve forças para salvá-lo”. Enfim, em Pandora não há Deus ou, se há, ele é essa força bastante limitada e frágil que compõe a natureza, mantendo o meio ambiente em equilíbrio e precisando ser respeitada. Se desrespeitada, a vida de todas as espécies de Pandora estará ameaçada. Até a escolha do título Avatar aponta para isso. Avatar é o humano transformado laboratorialmente em Na’vi para se infiltrar e espionar o povo de Pandora, a fim de ajudar o homem-capital a ter êxito naquela sua missão. No Google, veja o que encontrei: “Avatar é palavra originária do sânscrito, vem de Avatãra e quer dizer ‘aquele que descende de Deus’ ou a ‘encarnação’ de qualquer espírito que ocupe um corpo, representando assim uma manifestação divina na Terra.” Encontrei também que, no hinduísmo, “Avatar é a manifestação corporal de um ser imortal, que pode ser por vezes um ‘ser supremo’. Significa “descida” ao corpo, normalmente denotando encarnações de Vishnu, tais como Krishna, que muitos hinduístas reverenciam como divindade.” No filme, o avatar, criado para se infiltrar como espião, muda de lado e se torna esse “ser supremo”, “do bem”.
Porém, claro está, no filme de Cameron, que essa encarnação ou essa manifestação corporal de uma entidade (que pode até ser suprema) não vêm de algo misterioso nem místico, a quem devemos temer por ser onipotente ou por vir supostamente de uma inteligência superior. Os avatares são produtos científicos, não encarnações divinas. São o resultado de algo já conhecido, a natureza, manipulada pelo homem, a qual devemos sempre respeitar se quisermos preservar a vida que é essencial à lua de Pandora e também à Terra. A natureza é, sem dúvida, outro ser supremo, a ser amado incondicionalmente, mas não reverenciado dogmaticamente. Avatar, o filme, é também a superação da filosofia. Em Pandora, a filosofia, tal qual a religião do religare, é igualmente desnecessária. A filosofia é a ciência das ciências. Visa a desvendar os enigmas mais íntimos e essenciais da matéria, em especial, da matéria orgânica, respondendo às três grandes perguntas: de onde viemos, o que somos e para onde vamos. Em Pandora, esses enigmas estão todos desvendados, assim como a ciência autêntica já desvendou as dúvidas que dizem respeito à humanidade.
Os Na’vi sabem tudo a respeito de sua origem e da importância que cada objeto ou cada individualidade têm na preservação da unidade do todo e na sobrevivência de sua espécie. Os Na’vi não precisam conhecer mais nada de si mesmos nem de seu habitat, Pandora. Isto até o exato momento em que um novo desconhecido chega — o homem-capital — para invadir, ocupar e expropriar tudo, trazendo violência, violação e destruição. Nesse momento, os habitantes de Pandora descobrem que precisavam conhecer melhor a realidade, para poder fazer frente aos humanos invasores. O novo filme de Cameron é também o melhor de todos os tempos porque é verdadeiro marco, novo divisor de águas na história da humanidade. Uma das mais importantes descobertas científicas de Marx, já comprovada pela ciência autêntica, está em que a divisão em classes nos trouxe, de um lado, avanço e progresso sem precedentes; mas, de outro, por ser marcada pela apropriação e roubo de força de trabalho (o fenômeno da mais-valia), nos manteve até aqui em permanente conflito (aquele tão execrado por Jesus), a ponto de ele (o conflito de classes) ter se tornado fonte de origem da a barbárie que aí está. Ou seja, das doenças, da criminalidade, da destruição ambiental e de toda a desgraça que hoje abala a humanidade.
Temos filmes que foram igualmente divisores de águas, como O Incrível Homem que Encolheu, de 1957, direção de Jack Arnold. Versa sobre os efeitos destrutivos da radioatividade, numa época em que o planeta começava a se ver ameaçado pelas guerras nucleares. Há outros como O Dia em Que a Terra Parou, de 1951, direção de Robert Wise, em que um extraterrestre chega à Terra numa nave espacial para, com diplomacia, pedir o fim da proliferação de armas nucleares, as quais estariam pondo em risco todo o equilíbrio interplanetário. Ou filmes como Spartacus, de Stanley Kubrick, e Titanic, do mesmo James Cameron, em que a luta de classes e seus efeitos nefastos são mostrados de forma direta e objetiva no cinema. E também ET e Contatos Imediatos do 3o Grau, de Steven Spielberg e que tinham igualmente essa força. Mas nenhum deles atingiu o grau de plenitude de Avatar.
Só encontrei um senão no filme: a facilidade que os dóceis Na’vi encontram para enfrentar os humanos, estes superdotados e em poder da mais alta tecnologia, com naves de última geração. Mas Cameron está perdoado, o deslize não compromete. Que bom Avatar já ter ganhado o Globo de Ouro, ser forte candidato ao Oscar de melhor filme e poder bater todos os recordes de bilheteria da história do cinema (caminha para ser também recordista de público, hoje com E o Vento Levou). Chegar a tais números é conquista não só do cinema e de Cameron, mas da humanidade, portanto, digna de homenagens em todo o mundo.
Sim, a vitória dos Na’vi, o povo da lua de Pandora, soa falsa no filme. Até porque ela acontece fácil demais, ao cair no clichê maniqueísta e reducionista hollywoodiano da luta entre o bem e o mal dos velhos faroestes em que os índios eram sempre vilões e, o branco colonizador, o heróizão. Só que isto também foi de propósito em Cameron. O uso do clichê da polarização bidimensional reducionista entre o bem e o mal, típica de Hollywood, não só é consciente em Cameron, mas é o que há de mais sensível, inteligente e consistente em Avatar. O cineasta inverte este clichê, ao colocar o homem-capital como vilão, inclusive dentro de um transformer, justamente para desconstruir o próprio clichê e superá-lo, e com sutil ironia (coisa que Quentin Tarantino tentou mas não conseguiu fazer, por exemplo, em seu filme Bastardos Inglórios, em que o resultado acabou sendo pífio e grosseiro).
A história de Avatar, sem dúvida a mais consciente do cinema, nos obriga a ver que o vilão tradicional pode ser na verdade, muitas vezes, o verdadeiro herói e que o herói tradicional pode ser perfeitamente o verdadeiro vilão. Isto com nítido propósito de nos levar a crer que rebeliões por causas justas nunca são ingênuas nem inconsistentes, muito menos utópicas, e que podem perfeitamente ser vitoriosas, uma vez que estão sempre do lado da razão. Avatar é além de tudo a tecnologia — inclusive, a de 3D — a serviço da arte e do cinema, o que dá mais força e brilho ao filme, numa experiência única e sem precedentes no cinema. No filme de Cameron, a tecnologia é elemento decisivo do conteúdo.
Além de tudo, Avatar é corajoso. É preciso muita coragem para, em plena ocupação do Iraque e diante da possibilidade de o Irã ter a bomba atômica, fazer com que as mulheres Na’vi de Pandora também entoem uma variação daquele canto típico das mulheres árabes, o zaghareet (em árabe) ou called, salguta ou sarguta (assim chamado pelos iranianos). Trata-se de grito de guerra que teve origem no Egito e hoje expressa muito mais alegria por algo de bom que aconteceu (e que geralmente é ruim para o homem-capital do Ocidente). Também exige forte dose de coragem fazer com que o homem-capital, o grande vilão de Avatar, chame de terroristas os hominídios avatares que se infiltraram na comunidade Na’vi para ajudar a combatê-la, mas acabaram aderindo à causa de Pandora. É difícil acreditar que toda essa autocrítica tenha partido de Hollywood, a grande Meca do capital criada com o único propósito de defender, fortalecer e proteger a vida capitalista. O novo filme de Cameron é a prova de que o cinema feito nos Estados Unidos continua sendo o melhor e o mais poderoso, justamente por ser o mais crítico de sua realidade. Não tenho vergonha de dizer que chorei do começo ao fim.
É uma pena que o governo chinês tenha desprezado o filme, que ficou apenas alguns dias em cartaz na China, para dar lugar a uma superprodução local sobre Confúcio. Mais de um bilhão de chineses deixaram de ver, cerca de 1/6 da população do Planeta. Mas, não adianta. A História é implacável com esses fenômenos. Avatar já é uma espécie de bíblia, mais cedo ou mais tarde vai ser conhecido de todos no Planeta, como a Lua, Pelé, o Haiti etc. A jornalista norte-americana Lori Pottinger foi muito infeliz em sua coluna no renomado site The Huffington Post, ao estabelecer paralelo entre o que ocorre em Pandora e na Amazônia, incriminando o governo Lula pela devastação ambiental a que estamos assistindo. Sim, a Amazônia está desaparecendo, mas a devastação no governo Lula foi inferior a de recentes governos anteriores. Paralelo mais pertinente teria sido entre Pandora e os colonizadores que chegaram à América, destruíram as grandes reservas florestais, usurparam territórios indígenas, dizimaram suas populações, deterioraram o meio ambiente, ajudaram a poluir o Planeta e depois instituíram o Estado de Direito e a democracia para sacramentar, aos invasores europeus, o direito de propriedade.
Toda essa opressão e essa subserviência, nos mesmos moldes da mostrada na Pandora de Avatar, levou a ciência autêntica a constatar que, enquanto prevalecer a divisão de classes, os homens permanecerão na pré-história. Uns voltando-se contra outros, todos egoístas e possessivos, garantindo de um lado opulência a alguns (progresso) e, de outro, fome e miséria para bilhões (retrocesso e atraso). Só ingressaremos na verdadeira História quando, em vez de fazer uma história meramente em si, como é hoje, o homem passar a fazer uma história consciente e para si, em que ele determina tudo de comum acordo com a natureza. Evidentemente, sem nunca desrespeitá-la ou pôr em risco seu equilíbrio e a harmonia, ainda que conflitiva, que supostamente sempre existiu entre ambos. Assim, ao nos brindar com essa forma racional de vida, dona de toda essa liberdade para traçar seus próprios desígnios e sem os conflitos de interesses perpetrados pelas classes, Avatar marca o começo da verdadeira história humana.
Nos últimos 45 anos, sempre tive em conta que 8 e ½, de Federico Fellini, era o que havia de melhor no cinema e Spartacus, de Kubrick, a melhor superprodução. Avatar acaba de tomar o lugar deles. Coincidentemente, 8 e ½ de Fellini nos brinda com um conceito de arte que é perfeito, cientificamente correto e definitivo. Inclusive, é o dado que mais concorreu para que eu o considerasse o melhor filme do cinema até Avatar. É o mesmo conceito de arte posto por Picasso e que é a ‘fórmula’ da ‘boa-arte’: “A verdadeira obra de arte é uma mentira que nos faz ver uma verdade”. Fellini apenas acrescenta em 8 e ½: “Portanto, se você não tem o que dizer, não faça arte.” E eu acrescento: “A arte é o grito de dor ou de júbilo experimentado pelo homem. São as emoções mais fortes que ele experimentou em vida, geralmente antecipando-se aos seus semelhantes. Daí precisar partilhá-las com todos (pondo-as para fora na forma de obra de arte), de tal maneira que o público assimile a mesma experiência e saiba como se sair bem dela, se um dia a experimentar também.” Avatar é justamente isso: uma mentira (na medida em que é uma história de ficção criada pelo homem — no caso, por Cameron) que nos faz ver todas essas verdades aqui apontadas, despertando a consciência até mesmo de consagrados intelectuais (meu amigo Werneck entre eles, embora ainda não seja famoso nem esteja consagrado, o que é uma questão de tempo — basta que adquira esta consciência para dar o salto definitivo).
Importante é entender que conscientizar não significa ‘impor’ uma idéia ao espectador, mas plantar nele a semente da verdade, que poderá germinar ou não. Isto sabendo de antemão que, se a semente germinar, ainda vai levar anos e anos de boca a boca, contando com a força de outras obras de arte, para que haja verdadeira e duradoura tomada de consciência. Portanto, Avatar pode ser só o começo da tomada de consciência, daí eu dizer também que pode ser o começo da verdadeira História. A consciência se põe em um, depois chega a outro e, ao longo dos séculos, vai se disseminando, custando muito a chegar a toda a humanidade. Só um alienado acha que consciência só é verdadeira quando todos os habitantes do Planeta a alcançam de forma definitiva. Quem são os primeiros a tomar consciência em Avatar? São os próprios avatares infiltrados. Eles aderem à causa dos Na’vi tão logo percebem a irracionalidade daquela invasão predatória do homem-capital. É exatamente o que ocorre na obra-prima de Eisenstein, O Encouraçado Potemkin (1925), quando os marinheiros da Armada Imperial Russa rebelam-se no encouraçado, aderindo à revolução. Isto também é consciente em Cameron e chega a ser citação, sugerindo-nos uma revisão do filme russo.
Pandora, a lua habitada pelos Na’vi, simboliza a sociedade sem classes antagônicas para a qual o homem precisa caminhar, tirando proveito dos avanços e de todas as conquistas tecnológicas até lá alcançadas, e que a sociedade de classes nos propiciou. Avatar é a caminhada em direção ao futuro queimando etapas e antecipando dias promissores, como tanto deveríamos fazer. O Planeta está enfermo, nos lembrava Michael Jackson, e se nada for feito para conter essa voracidade do homem-capital que vemos em Avatar, a vida essencial ao equilíbrio e à harmonia em todos os sentidos vai acabar. Em especial, a vida racional, cujo sentido maior é o de entender o Universo, para podermos dar altos voos em direção à imortalidade da espécie, a tudo. A humanidade não pode jogar fora essa oportunidade. Por isso, não só a arte e o cinema se dividem agora em antes e depois de Avatar, mas também a história humana não se dá mais antes nem depois de Cristo, mas sim antes (aa) e depois (da) de Avatar. Abraços a todos, Tom Capri.”
procurando o que ainda nem perdi.
dezembro 10, 2009
Achei esse texto nos meus arquivos e lembrei do quanto eu me emocionei quando o li pela primeira vez. Estou postando em homemagem à minha emoção.
“Depois de algum tempo você aprende a diferença, a sutil diferença entre dar a mão e acorrentar uma alma. E você aprende que amar não significa apoiar-se, e que companhia nem sempre significa segurança. Começa a aprender que beijos não são contratos e que presentes não são promessas. Começa a aceitar suas derrotas com a cabeça erguida e olhos adiante, com a graça de um adulto e não com a tristeza de uma criança. Aprende a construir todas as suas estradas no hoje, porque o terreno do amanhã é incerto demais para os planos, e o futuro tem o costume de cair em meio ao vão. Depois de um tempo você aprende que o sol queima se ficar exposto por muito tempo. E aprende que, não importa o quanto você se importe, algumas pessoas simplesmente não se importam… E aceita que não importa quão boa seja uma pessoa, ela vai feri-lo de vez em quando e você precisa perdoá-la por isso. Aprende que falar pode aliviar dores emocionais. Descobre que se leva anos para construir confiança e apenas segundos para destruí-la… e que você pode fazer coisas em um instante das quais se arrependerá pelo resto da vida. Aprende que verdadeiras amizades continuam a crescer mesmo a longas distâncias. E o que importa não é o que você tem na vida, mas quem você tem na vida. E que bons amigos são a família que nos permitiram escolher. Aprende que não temos de mudar de amigos se compreendemos que os amigos mudam… Percebe que seu melhor amigo e você podem fazer qualquer coisa, ou nada, e terem bons momentos juntos. Descobre que as pessoas com quem você mais se importa na vida são tomadas de você muito depressa… por isso sempre devemos deixar as pessoas que amamos com palavras amorosas; pode ser a última vez que as vejamos. Aprende que as circunstâncias e os ambientes têm influência sobre nós, mas nós somos responsáveis por nós mesmos. Começa a aprender que não se deve comparar com os outros, mas com o melhor que pode ser. Descobre que se leva muito tempo para se tornar a pessoa que quer ser, e que o tempo é curto. Aprende que não importa onde já chegou, mas para onde está indo… mas, se você não sabe para onde está indo, qualquer caminho serve. Aprende que ou você controla seus atos ou eles o controlarão… e que ser flexível não significa ser fraco ou não ter personalidade, pois não importa quão delicada e frágil seja uma situação, sempre existem dois lados. Aprende que heróis são pessoas que fizeram o que era necessário fazer, enfrentando as conseqüências.Aprende que paciência requer muita prática. Descobre que algumas vezes a pessoa que você espera que o chute quando você cai é uma das poucas que o ajudam a levantar-se. Aprende que maturidade tem mais a ver com os tipos de experiência que se teve e o que você aprendeu com elas do que com quantos aniversários você celebrou. Aprende que há mais dos seus pais em você do que você supunha. Aprende que nunca se deve dizer a uma criança que sonhos são bobagens…Poucas coisas são tão humilhantes e seria uma tragédia se ela acreditasse nisso. Aprende que quando está com raiva tem o direito de estar com raiva, mas isso não te dá o direito de ser cruel. Descobre que só porque alguém não o ama do jeito que você quer que ame não significa que esse alguém não o ama com tudo o que pode, pois existem pessoas que nos amam, mas simplesmente não sabem como demonstrar ou viver isso. Aprende que nem sempre é suficiente ser perdoado por alguém… Algumas vezes você tem de aprender a perdoar a si mesmo. Aprende que com a mesma severidade com que julga, você será em algum momento condenado. Aprende que não importa em quantos pedaços seu coração foi partido, o mundo não pára para que você o conserte. Aprende que o tempo não é algo que possa voltar. Portanto, plante seu jardim e decore sua alma, em vez de esperar que alguém lhe traga flores. E você aprende que realmente pode suportar… que realmente é forte, e que pode ir muito mais longe depois de pensar que não se pode mais. E que realmente a vida tem valor e que você tem valor diante da vida!
Nossas dúvidas são traidoras e nos fazem perder o bem que poderíamos conquistar se não fosse o medo de tentar.”
(m)ar Aberto
dezembro 2, 2009
Não ter mais o mundo que eu tinha quando você respirava aqui dentro. Agora nem mais os olhos se procuram, se evitam, quando sua mão já procura outra, certeira, no meio da multidão. Dói te dar qualquer coisa. Te dar uma canção quando só penso nos seus montes que se encontram nesse momento fazendo construir pontes imaginárias, desculpas pra me jogar nesse mar de lágrimas que não evaporam nesse clima de memórias.
E as palavras que eu sempre ouvia agora eu imagino tendo a certeza que, por imaginá-las, são cada vez menos minhas. Dói acordar e ser atingido por uma onda de realidade que os pesadelos mais terríveis abrandavam. Meu estômago dói. E dói ter medo de sentir isso pra sempre.
Só quero todos os amores que eu tinha quando você respirava aqui dentro. Só quero todos os amores. Só quero todos os amores sem ter você.
Devaneio viral
novembro 11, 2009
Tudo reside no fato de a morte e a esperança residirem no amanhã.
Talvez não se façam artistas como antigamente porque toda nossa genialidade esta concentrada em conseguir sobreviver nesse mundo tão ligado ao passsado mas que nunca teve um futuro tão único e assustador. Um futuro onde a disparidade entre corpo e mente não é aceito e absorvido para gerar produtos artísticos. Vivemos, sabendo inconscientemente que tudo é possível. Como então amar não sabendo se amanha estarei com tuberculose? como poetizar sobre a natureza se ela já não está presente. Como falar da dor se um dia ela será opção para os conservadores que querem emocionar. O corpo é obsoleto e deve deixar de ser. Mas a arte e a beleza desta existiu e existe com essarelação, e apenas com essa.
- no dia seguinte em que escrevi isso, acordei com uma virose bizarra. O “Corpo” não gostou.
eu não quero dançar.
novembro 6, 2009
A nostalgia, às vezes, me toma de uma forma sufocante. A minha é daquelas que me fazem querer largar tudo para quer ir lá. Lá no passado. Ela sempre vem à tona por sensações quase sempre as mesmas. Um cheiro. Já fui à Chevagnes, cidadela onde mora meu avó…a uns vinte mil km daqui, levado por um aroma que vinha do vão do elevador do meu antigo prédio. Tão forte quanto os cheiros, são as músicas. Netinho, aquele do Axé, já me levou à Apucarana, cidade no interior do Paraná onde mora um tio e uma tia, onde costumávamos passar o natal. Ouvimos Netinho sem parar naquela época, 94, 95, e junto vem tanta coisa, tantas sensações..e são só as boas que vêm, fazendo do passado um lugar seguro, do presente um lugar sem graça e do futuro um lugar de medo.
Mas, são ainda, as memórias recentes as mais completas e complexas. Piro quando chega essa época do ano. Essa época em que o ar, devido ao calor, sei lá, muda de cheiro…esse ar quente que traz o fim do ano, o natal, o reveillon, período onde as coisas sempre aconteceram na minha vida. As associações são as mais diversas. A inauguração da árvore de natal da Lagoa, naqueles anos em que aconteciam bons shows por lá (já vi Ivans Lins e Michel Legrand) e eu ia com meu pai, cada um levando sua cadeira de praia. Isso tem fácil uns dez anos. Aliás, foi vendo a orquestra nesses shows que quis aprender a tocar violino, cheguei até a comprar um, mas isso é outra história. Outra assosiação é o aterro e a praia do Flamengo. Época de final de colégio, todo fim de tarde ia ao aterro passear com meu cão. E aquele céu incrível, quando o calor já se punha junto com o sol e o cheiro de fim de ano ficava mais latente. Consigo senti-lo agora. Tinha dias que eu ia à praia nesse horário e aí, quase sempre, meu pai ia junto. Poucas coisas são mais simples e divinas do que esses momentos.
Gostaria, se pudesse escolher, ter ouvido absoluto, mas não tenho. E se há alguma coisa em mim super desenvolvida é a memória. Céus, às vezes me vejo refém dela.
Outro dia descobri porque amo tanto o cd “As canções que você fez pra mim” da Maria Bethânia, cantando músicas do Roberto e do Erasmo. Desde que nasci, até meus 13, 14 anos, íamos, pelo menos 2 vezes por ano à Leopoldina, uma cidade no interior de Minas, na casa de uma tia da mnha mãe. Foi la que aprendi a nadar, tenho ótimas memórias de lá. Minha paixão por cachorros também começou lá. Então, quando saiu esse CD da Bethânia, minha mãe tinha uma versão em fita cassete dele e sempre íamos pra lá, no nosso Escort ouvindo-o. Escutávamos umas 3 a 4 vezes por viagem. Como não associá-lo a coisas boas? São pedaços desses momentos que nos fazem reviver, mesmo que no pensamento, momentos que não voltam mais.
Mas o motivo pelo qual decidi escrever sobre isso foi a música do Djalma, “Eu não quero dançar”. Acho que ele já a tinha e a colocou num trabalho da faculdade. Ele meio que esteve presente em todo o ano de 2007, um ano bem difícil para mim, mas cheio de experiências e aprendizados. Eu fumava, não sei porque raios, um sampoerna de canela no dia da apresentação do trabalho, que foi ao ar livre. Acho que isso resume bem esse momento da minha vida, que praticamente foi ontem. O ar já tinha o cheiro de fim de ano, e como todo fim de ano, alguma coisa me movia por dentro…quase sempre pessoas. O fato do Djalma não estar mais no Rio torna issso tudo mais nostálgico. Eram as aulas na CPM até as dez da noite que acabavam, na verdade, as nove. Era o Sujinho diário, a cerveja diária, o drama diário. É o sujinho que não vende mais cerveja, são as aulas na CPM que eu não tenho mais, são as pessoas, que como o Djalma não estão mais lá, é o cigarro de canela que eu nunca mais fumei.
É a vida que não para, que te atropela, que você só percebe quando fica mais de 24 horas em casa…e percebe, ao olhar pra trás, que a linha, reta em alguns momentos, tortuosa em outras, que é sua vida, vista de perto são vários pontos, e que esse exato momento é mais um, de milhares que ainda virão. E alguns pontos vc guarda consigo, em forma de lembranças. Lembranças despertadas por cheiros, por músicas, por paisagens. Eu estou cheio deles nos bolsos e pretendo não perde-los, jamais.
p.s: acho que dificilmente eu escreveria isso se não estivesse sensibilizado, física e mentalmente por uma virose. Conviver apenas comigo por 48 horas é, muitas vezes, revelador.